9 de abr de 2010

O ladrão de raios

Ultimamente  poucos  filmes   despertam meu interesse  e  às   vezes  saio do cinema  antes do  filme acabar. Ando mais exigente e seletiva, sem muita paciência para ver o que não me agrada.

No lançamento de " Percy Jackson e o Ladrão de Raios " , no início  de  fevereiro ,  entre tantos que estavam em cartaz  escolhi   para  ver  ao acaso e de forma intuitiva -  pois nada  havia lido a respeito - o filme  que   conta a  incrível  história de Percy Jackson.  Trata-se de uma adaptação para o cinema da série literária  juvenil  " Percy Jackson  e os Olimpianos ".

Saí leve  do cinema ,  com  a sensação  de que escolhera bem .O filme é delicioso. Tem tudo que eu gosto : aventura, humor, efeitos , bela  fotografia   e  versa  sobre um tema que eu adoro, mitologia grega. Claro que é um filme para diversão , nada de profundidade. O diretor é Chris Columbus,  o mesmo dos dois primeiros  da  série  Harry Potter (eu gostei mais de Ladrão de Raios) . 


A sinopse 

Percy  Jackson é um adolescente  hiper ativo , com problemas na escola e na família. Apesar de  viver no século 21, os deuses do Olimpo saem dos   livros de mitologia grega  e entram na sua  vida . Ele descobre que  é filho de uma humana e de Poseidon , o deus dos mares . Portanto é um semi-deus , meio humano , meio divino . Tem dificuldades de  aceitar o pai,  acusando-o de tê-lo abandonado  .

Zeus, o  deus dos deuses ,  acusa Percy de  ter  roubado seu raio, a  arma mais poderosa   que existe. Percy conhece outros  dois  semi-deuses , a guerreira Annabeth - filha de Athena , deusa da sabedoria e estratégia  - e Grover, um sátiro , que é seu protetor . Os três se unem para uma odisséia que irá levá-los ao Monte Olimpo (morada dos deuses)  e para o famoso letreiro de Hollywood,   sob o qual  arde o mundo  inferior , que  é governado pelo deus Hades. O destino da humanidade depende do  resultado dessa  jornada , bem como a vida da mãe de Percy , que ele terá de  resgatar das profundezas do mundo de  Hades .

Minha interpretação 

Percy representa a humanidade, todos nós somos  semi-deuses, meio humanos, meio divinos . Filho de Netuno (ou Poseidon) ,o deus das  águas, ele tem uma natureza essencialmente  emotiva (as águas  representam as  emoções). Por ser  tão emotivo,  tem problemas na escola e na  família . Precisa separar o joio do trigo, as  águas turvas , das  águas límpidas.

Como todo semi-deus  é potencialmente um herói . Sua jornada é uma busca dessa identidade . Conta com o auxílio de um protetor, o sátiro Grover - que  representa os poderes da Natureza -  e  da filha de Athena  ( representando a  Sabedoria  e Estratégia) . Precisa  resgatar sua mãe  das profundezas do mundo inferior ( vencer  sua natureza inferior ) e aceitar o pai ( sua origem divina ) , para  salvar a  si e a  humanidade (que é por ele  representada). Resgatando sua origem divina e  vencendo  sua  natureza inferior , estará salvo e por consequência a humanidade .

O que  representa o raio ? Percy não roubou o raio de Zeus, ele nem sabia que o raio estava escondido no seu  escudo . O raio foi roubado por outro, sob influência de Hades . O raio simboliza o poder e  todo poder deve ser bem  usado. Quem o detém deve ter antes de tudo sabedoria .

Vi , gostei  e  recomendo para quem gosta do gênero infanto-juvenil . Gostei  tanto que estou lendo o livro .

 O Cartaz

O Sátiro Protetor

A filha de Athena

 Clique nas imagens para ampliar .

Veja o trailer ...


Fonte das imagens aqui

6 de abr de 2010

A arte de ser feliz...


(Cecília Meireles) 

Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que
parecia ser feita de giz. 
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. 
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. 
Outras vezes encontro nuvens espessas. 
Avisto crianças que vão para a escola. 
Pardais que pulam pelo muro. 
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. 
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. 

Às vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.

ooOoo

Cecília Meireles , como qualquer pessoa , queria ser  - e  foi - feliz .  Sua infância  foi marcada pela dor e solidão, pois perdeu a mãe com apenas três anos de  idade e  não chegou a conhecer o pai , que  morreu antes do seu nascimento . Foi criada pela  avó materna  e começou a  escrever suas primeiras poesias  por volta dos nove  anos de  idade .  

Teve uma  experiência traumática na sua vida ,  o suicídio do primeiro marido. Mas  superou  a perda  persistindo na vontade de ser  feliz  ,  encontrando   estabilidade emocional  e afetiva ao lado do segundo marido .  
Foi uma mulher de fases  - como   a maioria das mulheres   - e sua poesia , simples , profunda  , cheia de  simbolismo  ,  retrata a   beleza da sua alma . Gosto de quase toda obra de Cecília Meireles, mas  especialmente dessas duas poesias...



Lua adversa  


Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso! 


Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

ooOoo

Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmã das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. 
Não sei se fico , ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei muda:
- mais nada.

 ooOoo
Cecília por ela mesma

"Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno. (…) Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.
(…) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano.'' ( trecho de um escrito de Cecília Meireles) .


Fontes de pesquisa e da  foto aqui  e  aqui
Fonte da imagem janela aqui



ooOoo

Paulo A. Teixeira ( do blog Alma Carioca )  , gostou do post  e  o publicou no  "Alma Carioca "   . Veja aqui